Refletindo as semanas de moda brasileira

Por mais uma vez me foi atribuída pela idealizadora do Blog Le Confetty a função incrível de fazer comentários da Temporada de Moda, especificamente Rio e São Paulo Inverno 2012. Cidades que fazem parte do Calendário Mundial de Eventos e Negociações da área.
A frente de uma página em branco ao som da La Vase de Ravel pela Orquestra Sinfônica de Montreal, conectado a internet e tomando uma xícara de chá percebi a paixão que possuo ao falar de Moda, ao ler livros sobre a mesma, sobre arte, design e revistas ressurge a admiração que cativou a minha vontade de fazer parte deste universo.
Procurei ler alguns blogs antes de escrever este texto, mas só li: “que fofo”, “que lindinho” (…) mostrando alguns looks como fatores isolados. Quando penso em desfile me vêm às palavras “unidade” e “DNA”, por fazer parte de uma coleção de alguma marca, envolvendo mentes e olhares, criando uma atmosfera temática que por si vende a ideia ao mercado de consumo. Vendo os desfiles saí desse mundo utópico! Aqui irei filosofar, falar das marcas que se destacaram e frustações sentidas.
A 2nd Floor foi um dos destaques do Fashion Rio com muitos conjuntinhos, pêlos, tricôs e camisaria. Conquistou os críticos pela estamparia sóbria, harmonia na cartela de cor e passagem na passarela, mostrando ser extracool. Junto a ela mergulhando no moodfresh dos artistas nova-iorquinos da década de 80, a Herchcovitch apresentou ares jovens com pinceladas coloridas se contrapondo aos tons pastel. Mistura de denim, couro e renda.


Maria Bonita Extra sob nova direção, por Katia Willie, mostrou as suas “senhorinhas jovens” o conceito Bonequinha de Luxo com silhuetas a la Dior, sendo a maior parte dos looks de cintura marcada e tons minimals. A tendência Lady Like reinou em inúmeros desfiles.

A Espaço Fashion se inspirou na cidade Maravilhosa, com formas geométricas neutras, brilho e peças micros. Distinguindo-se do que era desde o inverno 2008, aparentemente para uma mulher mais madura. Entretanto, visualmente investindo no mesmo público, Maria Filó em seu segundo desfile no Fashion Business idealizado por Roberto Ribeiro chegou em clima de Festa, mas não se equiparou ao Perfume lançado na Primavera-verão 2011/2012. Com Isabeli Fontana a marca carioca apresentou um desfile longe do que é descrito como sua cliente: jovem e “fofa”. Veludo, tricôs e seda foram alguns materiais usados em formas longilíneas.

Em depoimento para o documentário História da Moda no Brasil, Regina Guerreiro disse que a moda carioca acabou quando surgiu o básico. Não acho que a moda carioca acabou, mas perdeu o encanto quando deixou de ser carioca, sem vivacidade e olhar pra si.

No São Paulo Fashion Week o prodígio Pedro Lourenço saiu do Brasil Imperial e foi para gélida Patagônia, puro Ice. Cortes precisos e estamparia de imagens realistas, o jovem estilista impressionou mais uma vez. Não é atoa que o valor das suas peças sejam tratadas como obras de arte. Silhuetas retas, casacos em degrades neles aplicados a técnica mohair (pele de cabra tratada).
Sem perder o espírito esportivo a carioca Osklen refletiu a respeito da Agenda 21, após nomeação de Oskar Metsavahta embaixador da Boa Vontade da UNESCO. Guardiões desceram na passarela para proteger a Terra munidos de tecidos ecológicos, entre eles couro e seda com tingimento à base de vegetais.
O luxo aristocrático dos czares imperou na Animale, viajando pela atmosfera sofisticada de Moscou muita transparência, fendas, barras assimétricas e tons do vermelho ao verde-musgo. Para abrilhantar teve a presença da britânica Rosie Huntigton-Whiteley entre outras grandes tops. Foi uma constelação.

Do hipismo foi retirada a inspiração da Cori sob a direção criativa de Andrea Ribeiro e Gisele Nasser. Amazonas sensuais invadiram a passarela com peças em detalhes de couro, saia lápis, fendas e decotes profundos.

Outras duas que se destacaram foi a Ellus cheia de atitude Heavy Metal. Looks escuros, couro e ilhós bronze se contrapondo ao luxo pomposo de Samuel Cirnansck.
O Gótico foi revisitado por Reinaldo lourenço e Triton que não parecia ser Triton. Formas retangulares e tons sóbrios, aliás a palavra das temporadas Rio e SP foi sobriedade.

Quando questiono as mudanças estéticas das marcas não é simplesmente criticando, mas retomando o DNA, sendo o fator que diferencia as grifes do velho mundo das demais. Todos reconhecem um modelo D&G ou Chanel, porque ao longo tempo elas foram fortificando seu DNA a ponto de todos saberem de quem é! Isso falta na Moda brasileira, não é uma identidade folk, mas personalidade.
Não falei de todos os desfiles, pois não há necessidade. As informações simultâneas ao invés de ajudarem no processo criativo estão prejudicando, estamos quase vivenciando uma uniformização. Medo que surgiu meados da década de 40 com o fortalecimento do prêt-à-porter. Tudo muito parecido e sinceramente cansou o meu olhar. Não esquecendo, lamentei profundamente a falta de Ronaldo Fraga na semana de Moda de São Paulo.

“Eu brinco que moda acabou porque acredito que ela não existe mais como a conhecemos. Esse sistema comercial engessa, é angustiante e tira o brilho”. (Ronaldo Fraga para Vogue após 17anos de SPFW)

Post escrito por R.Jersey

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Um pensamento sobre “Refletindo as semanas de moda brasileira

  1. Incríveis as descrições! Definiu estilos e tendências. Também acredito que os desfile precisam ser vistos como um todo, a identidade da marca exposta ali, naquele momento. Exatamente isso, DNA.

    beijos ;)

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